Vivemos sob a ditadura de palavras e expressões, carregadas dos seus significados (falsos ou verdadeiros), e elas fundamentam e determinam, ou comandam o nosso modo de pensar, o nosso comportamento, o nosso modo de vida. São elas, as palavras e expressões, com a compreensão que temos delas, que influenciam o nosso olhar diante do mundo, que nos permite se justificar diante da realidade, imaginada ou que nos é dada, que qualificam o nível de relacionamentos que vivenciamos no nosso cotidiano, enquanto família, enquanto comunidade, enquanto povo, enquanto nação. Vendo, ouvindo,falando, lendo ou escrevendo, ou se expressando, seja de que forma for, a palavra e a expressão, com seus significados, estão presentes na lógica da nossa compreensão, na lógica do nosso agir e do vivenciar nossas convivências cotidianas. Nossa morada, nosso mundo concreto ou da imaginação, está sempre povoado e alicerçado pela estrutura formada pelas palavras e expressões com os seus significados, sabemos disso de forma consciente ou não, e é assim que vivemos, ou seja, sob a ditadura de palavras e expressões.
No entanto, vivenciamos uma época onde os meios de comunicação, em nome da democracia e da liberdade de expressão, a mídia pratica e divulga de forma aleatória, toda sorte de pensamentos e de interpretações ideológicas (ideologias políticas, econômicas, estéticas, éticas, religiosas, etc.), apenas mudando o significado e o sentido de palavras e expressões. E nós, professores, sabemos dos efeitos perniciosos, de conseqüências imprevisíveis, para a formação do caráter ético de crianças e jovens, quando a educação deles é orientada e conduzida em função de palavras e expressões distorcidas e equivocadas, fora do seu verdadeiro significado e sentido de uso.
“A educação vem do berço” é um dito antigo e muito apropriado, pois é verdade que, palavras essenciais, ouvidas de nossos pais ou da convivência com nossos familiares, adquirem uma força amorosa e profunda na nossa consciência. É verdade também, e sabemos disso, que no decorrer de nossas vidas, essas palavras vão exigindo coerência em seus significados para nós.
Nós, professores, sabemos da importância para a formação psíquica, da internalização educativa na faixa etária até os onze, doze anos, dos jovens, e também por isso devemos redobrar nossos cuidados em não permitir que passe despercebido em nossas aulas, a equivocada, falsa ou tendenciosa interpretação de uma palavra ou expressão. E nunca, nunca mesmo, podemos fazer ouvido de mercador, ao ouvir ou presenciar tal fato ou situação. Devemos sempre estar atentos em resgatar para as palavras, o seu verdadeiro significado e sentido de uso. O esclarecimento, a elucidação, a clareza de sentido, é preciso tornar-se um hábito.
Para nós professores, a nossa força, a nossa arma, a consistência da nossa autoridade como mediadores do conhecimento, se faz em função da coerência e da veracidade das palavras que pronunciamos. Nós todos, professores, de forma consciente ou não, sabemos disso. E as crianças e jovens, nossos alunos, também sabem disso, enquanto nos observam, e somos atentamente observados o tempo todo, sabemos disso. Somos para nossos alunos uma faca de dois gumes, na medida em que atendamos ou não essa expectativa deles em relação a nós. Somos uma espécie de resistência à decadência da linguagem, à vulgaridade da palavra e da comunicação. Portanto, não podemos abrir mão de nos portarmos como guardiães da identidade da nossa linguagem com o nosso território, onde as palavras devem definir de fato e de direito, o que realmente elas querem dizer, para nós e por nós. Devemos sempre trabalhar para que as palavras estejam onde devem estar. Caso contrário estaremos na contramão da evolução positiva da nossa língua, da nossa linguagem, e da própria ética da comunicação.
Do filósofo Joaquim Pinto.
Em função dos fins e objetivos para os quais o CEMFA foi criado, estamos desenvolvendo uma campanha junto às escolas do ensino fundamental e médio, da rede pública e da rede privada, no sentido de que elas mobilizem seus respectivos professores(as) para a tarefa permanente de cuidados com o pensamento, com a linguagem e a comunicação, dentro do nosso(?) sistema sócio-cultural-educativo.
usa e abusa dos recursos disponíveis (recursos científicos, tecnológicos, intelectuais, e da pseudo-liberdade de expressão), no sentido de atingir seus objetivos sociais de convencimentos econômicos. A mídia tem jogado as palavras com as palavras, de formas distintas, formando distintos jogos nos jogos de linguagens, de forma sutil, tendenciosa e manipuladora, em todos os sentidos, unicamente para atender os objetivos político-econômicos para os quais ela se presta.
Por apenas isso, que grosso modo foi passado até agora, a filosofia analítica considera a linguagem como o problema central, no que diz respeito ao seu uso. Ela é uma faca de dois gumes, e por isso merece cuidados.
Uma das tarefas a que o Cemfa se propõe é fazer com que o esclarecimento na linguagem (através dos(as) professores(as) e pelo hábito do cuidado) chegue às crianças e jovens, para que eles possam crescer dentro do sistema, e apesar dele, possam criar e desenvolver suas próprias autonomias como pessoas, nos seus pensamentos, nas suas comunicações. Trata-se de um esforço contributivo para neutralizar os efeitos enfeitiçadores que a própria linguagem gera nela mesma. Estamos buscando contribuir para a abertura de caminhos, de caminhadas, que possam nos conduzir de forma ativa, consciente e consistente, na construção e sustentação da nossa identidade autêntica e plena. Vamos realmente cuidar das nossas crianças e jovens, cuidando da autenticidade e da plenitude dos seus pensamentos, na linguagem e na comunicação deles.